Um dia por vez
Há um tipo de cansaço que não vem apenas do excesso de trabalho.
Vem do peso invisível de tentar sustentar o correto em um sistema que, muitas vezes, parece ter se acostumado ao errado.
E talvez isso fique ainda mais evidente para quem trabalha diariamente com governança pública, ética, proteção de dados, saúde suplementar e responsabilidade institucional.
Como fornecer treinamento para julgamento de processo ético quando os próprios parâmetros de credibilidade parecem se dissolver diante dos nossos olhos?
Como ensinar LGPD quando páginas de um processo judicial sigiloso aparecem na mídia no dia seguinte à última petição, como se a privacidade tivesse perdido o valor e o silêncio já não encontrasse espaço em meio ao barulho permanente das telas?
Como convencer um cliente de que uma operadora de saúde não pode negar determinado procedimento, se o próprio Estado muitas vezes não consegue oferecer o básico?
A verdade é que lutar por boa governança pública e proteção jurídica para aqueles que confiam no seu trabalho não é simples.
É desde um agente administrativo negando acesso a um processo, atrás de uma mesa fria e protocolos intermináveis, até a tensão silenciosa de uma prestação de contas em uma Tomada de Contas Especial.
É explicar, todos os dias, que o computador não pode permanecer aberto sem o usuário.
É insistir que dados pessoais possuem valor e proteção jurídica mesmo quando o ambiente digital transforma exposição em rotina e a intimidade alheia em espetáculo de consumo rápido.
É mostrar que operadora de saúde e ANS nem sempre caminham juntas, embora o cidadão comum imagine que tudo funcione de maneira automática, limpa e previsível.
E talvez uma das partes mais difíceis seja perceber que esse trabalho exige muito mais do que conhecimento técnico.
Exige paciência.
A paciência amarga e silenciosa de repetir orientações básicas.
A paciência de reorganizar o que já deveria estar organizado.
A paciência de lidar com o colega que, além do equívoco técnico, ainda dificulta o próprio assessoramento jurídico.
Existe um desgaste invisível em quem passa os dias tentando construir ordem em ambientes atravessados por pressa, vaidade, ruído e improviso.
Porque o problema nunca foi apenas jurídico.
É cultural.
E lutar contra uma cultura que normalizou o incorreto é um trabalho verdadeiramente hercúleo.
Há dias em que o corpo chega antes em casa do que a mente.
Dias em que o silêncio parece fazer barulho.
Dias em que a sensação é de enxugar o chão enquanto a água continua entrando pelas mesmas rachaduras.
Por isso, a motivação acaba se tornando algo profundamente pessoal.
Antes de ser um compromisso com o outro, passa a ser um compromisso comigo.
A certeza de que dei o meu melhor.
E, quando isso não foi possível, aprender também a me perdoar.
Porque não terei ingerência sobre tudo.
Nem sempre será possível convencer.
Nem sempre será possível corrigir.
Nem sempre será possível proteger tudo e todos.
E talvez maturidade também seja compreender os próprios limites sem abandonar os próprios valores.
As férias chegam justamente para isso.
Para desacelerar o ruído.
Descansar os olhos cansados das telas.
Deixar o ar voltar a circular com leveza.
Respirar sem urgência.
E recomeçar.
Sem a pretensão de resolver o mundo inteiro.
Apenas seguindo.
Um dia por vez.
