Quando a exposição vem antes do cuidado
Ela só queria entender o que estava acontecendo.
Esperava por um resultado que podia mudar tudo.
Mas a forma como ele chegou…
mudou mais do que o diagnóstico.
Mudou a maneira como ela se sentia diante do mundo.
Era uma farmácia.
Dia comum.
Fila, pressa, rotina.
A atendente chamou o nome dela.
E disse, com naturalidade:
“Já saiu seu resultado. Deu positivo pra HIV, tá?”
Assim.
No balcão.
Com gente ouvindo.
Com olhares cruzando.
Sem sala reservada, sem acolhimento, sem preparo.
Ela baixou os olhos.
Não disse nada.
E saiu.
A profissional não teve má intenção.
Mas o que falta, às vezes, não é vontade. É formação.
É consciência do que está sendo dito, onde, e pra quem.
Eu vi aquilo acontecer.
E senti um incômodo que nunca mais esqueci.
Porque na saúde, dado sensível não é só informação.
É parte da intimidade de alguém.
É um pedaço da dignidade da pessoa.
Desde 2020, quando comecei a estudar LGPD com profundidade, repito a mesma frase:
Não se trata de cumprir uma lei.
Se trata de cuidar de alguém — por inteiro.
E esse cuidado precisa incluir a palavra, o tom, o tempo, o lugar.
O erro não foi o teste.
O erro foi a forma.
A forma que fere.
A forma que expõe.
A forma que transforma o que poderia ser um momento de acolhimento, em um instante de vergonha.
Na saúde, ninguém está ali à toa.
Quem procura um serviço, muitas vezes está com medo.
E ser exposto em um momento vulnerável é uma dor que não aparece no prontuário, mas permanece na memória.
A LGPD vem pra isso:
pra lembrar que a informação também adoece ou cura, dependendo de como é tratada.
Porque no fim, não é só sobre sigilo.
É sobre respeito.
