Quando a conta chega para quem já deu tudo
Há uma indignação que não grita, mas queima por dentro.
Ela vem em silêncio, como um suspiro preso no peito, quando vejo um idoso sentado à minha frente — mãos trêmulas, papéis nas mãos — tentando entender por que o plano de saúde ficou tão caro justo agora, quando ele mais precisa.
É nessa hora que a gente entende que nem toda crueldade é barulhenta.
Algumas se escondem atrás de cláusulas. De reajustes por idade. De termos técnicos que secam o olhar de quem lê.
E dói. Dói como se fosse com alguém da minha família.
Meus pais partiram cedo. Não os vi envelhecer.
Mas lembro deles.
Do cheiro do café feito antes do sol nascer.
Do calor das mãos que me ensinaram a ser firme sem deixar de ser justa.
Da voz suave que dizia que o mundo era duro, mas que a gente podia ser decente dentro dele.
Hoje, quando vejo esses rostos marcados pelo tempo, dobrando boletos ao meio e fazendo contas com os olhos, me dá um nó.
Porque não é só uma fatura.
É o medo de perder o direito de ser cuidado.
É a dignidade sendo diluída em números que ninguém consegue explicar.
Um idoso não deveria passar os últimos anos da vida tentando lutar contra o sistema que ele mesmo financiou por décadas.
Não deveria precisar escolher entre o plano e o supermercado.
Entre a consulta e a paz.
Mas escolhe. Todos os dias.
E é aí que minha voz se firma.
Como cidadã, como servidora pública, como jurista — não posso aceitar que o envelhecimento vire sinônimo de exclusão.
O tempo devia trazer reconhecimento, não cobrança extra.
Cuidado, não abandono disfarçado de reajuste.
Respeito, não silêncio jurídico.
Por isso escrevo. Por isso me posiciono.
Porque mesmo sem ter vivido isso com meus pais, vivo com a memória deles presente em cada idoso que hoje carrega o peso que eles não carregaram.
E talvez seja isso que me move.
Essa mistura de memória, responsabilidade e afeto.
Esse sentimento agridoce de quem sabe que o Direito não cura tudo, mas pode impedir que a dor seja institucionalizada.
